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O sal e suas histórias: 2ª parte

25/08/2015
sea salt in wooden spoon

Ele foi o 1°mineral conscientemente usado pelo homem para reforçar a nutrição. Além disso, foi referência comercial, forma de pagamento e pretexto para diversas guerras. Conheça aqui as histórias que envolvem o sal na história da humanidade.

O sal tem um papel coadjuvante, porém muito importante na evolução da civilização humana. Seu uso, suas formas de extração e seu aproveitamento no dia-a-dia determinou mudanças cotidianas e até mesmo sociais em diversos momentos históricos, como na marcha promovida por Gandhi na Índia e a Revolução Francesa no século XVIII.

O sal e a civilização

Mas a participação do sal na nossa vida vem de muito antes. Os documentos mais antigos que mostram o uso do sal datam de sete a seis mil anos antes da era cristã, e foram encontrados na Índia e na China. São os primeiros relatos sobre a extração do sal a partir da evaporação da água marina. Peng Tzao Kan Um é o mais antigo tratado de farmacologia; ele data de 2.700 e descreve 40 tipos de sal e dois métodos de extração que, curiosamente, são um dos mesmos usados até hoje.

Intuitivamente, o homem primitivo já buscava o sal nas refeições; era por meio da gordura da caça que ele ingeria o mineral. Mais do que isso: o sal ajudou o homem a se estabelecer.  O cloreto de sódio inibe a proliferação de micro organismos nos alimentos e aumenta a vida útil dos perecíveis; portanto, foi um item essencial para guarnecer estoque de suprimentos, especialmente carnes, o que auxiliou o homem em superar o nomadismo.

Exemplos? Perto da gente, temos a própria tradição do sertão nordestino, a carne de sol, cujo preparo se fundamenta no uso do sal para preservar a carne seca numa região que há tempos é pobre em recursos naturais. Já mais longe, no Egito, o sal era usado como um dos métodos de mumificação, ou seja: preserva mesmo!

O sal e o comércio

Antes da era industrial, o sal sempre foi um item raro e, portanto, caro. Ele foi o primeiro item de transação internacional já registrado, e também foi usado como moeda e, portanto, como poder. O Império Romano pagava seu exército com punhados de sal. A palavra salário vem daí, bem como soldado, que tem raízes latinas derivadas de sal.

Diversas estradas foram construídas para ligar minas de sal a cidades ou portos; a estrada alemã Old Salt Route é um exemplo. A Via Salária, na Itália, é uma estrada que corta o país de leste a oeste e tem 242 Km de extensão; ela foi construída durante o Império Romano justamente para facilitar as trocas comerciais, cujas referências de preço eram o sal..

Muitos impérios, como o Português, exerceram controle dos estoques de sal de seus domínios. Uma tática dos imperadores era controlar os estoques de sal e distribuir à população em momentos estratégicos para acalmar os ânimos dos povos e ganhar sua simpatia — um dos mais antigos métodos da política de pão e circo.

No século XX, com a era da industrialização, a mineração subterrânea e a exploração de novas fontes minerais, o sal passou a ser extraído e produzido em larga escala. Com a globalização e seu barateamento, o sal finalmente chegou à mesa de famílias que antes não tinham acesso ao produto.

O sal e as revoluções

O controle excessivo sobre o sal e seu comércio levou à queda de alguns impérios e reinados. A gabelle, taxa sobre o sal, foi um dos motivos que levou o povo à irritação na Revolução Francesa. No entanto, nada é tão famoso como o que aconteceu em 1930 na Índia.

O Império Britânico, colono da Índia, impunha restritíssimas condições para extração e comércio de sal; como consequência, o item acabava sendo caro demais para o povo daquele país. Mahatma Gandhi rebelou-se: por que pagar tão caro num produto que se obtém da natureza?

Contra isso ele decidiu caminhar 400 Km a pé de sua cidade até o litoral para raspar sal à beira mar. Sua marcha pacífica iniciou com algumas dezenas de pessoas, e terminou com milhares. O episódio não só o colocou em destaque entre as grandes figuras revolucionárias não-violentas da história da humanidade, como preparou o terreno para, quase duas décadas depois, a Índia se ver independente de seus poderosos exploradores.

Expressões, curiosidades e turismo sobre o sal

Muito ouro, escravos e até noivas foram negociadas por sal. Portanto, além de soldado e salário, diversas expressões foram cunhadas em relação ao sal. Exemplos:

  • Na Grécia que surgiu a expressão “não vale o sal que come”;
  • A expressão “fulano é sal da terra” refere-se à confiabilidade da pessoa;
  • “Salgar a terra” se refere a um método usado para deixar um solo infértil;
  • Precisa mesmo explicar a expressão “preço salgado”?

Mas o sal tem muito mais curiosidades. No Budismo ele é utilizado em alguns rituais, pois acredita-se que o sal tem o poder de afastar o mal. No Xintoísmo e alguns rituais judaico-cristãos o sal é visto como um elemento de purificação. No Espiritismo, se uma casa guarda energias negativas, um copo com sal grosso atrás da porta vai ajudar a purificar o ambiente.

O Mar Morto e o Grande Lago Salgado em Utah são dois locais fascinantes. Os lagos salgados são regiões onde a água do mar por fatores geológicos acabou sendo isolada. Com a evaporação da água do lago, a salinidade de sua água aumenta, e por isso os corpos boiam, e somente algumas formas de vida, como fungos e bactérias resistentes, são capazes de sobreviver.

Quando o lago seca de vez, o que resta é uma região com sal por sobre a terra: o deserto de sal. Em Utah também existe um, mas um dos mais famosos do mundo está aqui mesmo na América do Sul, atingindo partes da Bolívia, Peru e Chile.

Por fim, se um dia vocês estiver passando pela região central da Europa, ou mais precisamente na Polônia, visite as minas de sal de Wieliczka, a poucos quilômetros de Cracóvia. Considerado um patrimônio da humanidade pela Unesco, é uma mina de sal construída no século XIII que tem mais de trezentos metros de profundidade e quase trezentos quilômetros de túneis.

O turista desce incontáveis lances de escada até começar o passeio, que desce por dezenas de salas, esculturas medievais, lagos e muito mais. O local é tão imenso que existe até mesmo uma capela, um salão cerimonial (todo feito de sal) e um restaurante para eventos. Uma das melhores partes do passeio é no salão, que contém uma versão do quadro A Última Ceia feita em sal, além de estátuas de sal cristalino a partir de imagens e ícones religiosos, como a Virgem Maria ou o papa João Paulo II, que era polonês. Um local imperdível que vale a visita.

Gostou da matéria? Então passe o sal. Ou melhor: compartilhe. E até a próxima matéria da Revista Digital, que vai trazer os sabores de Marrakesh. Aguarde.

Fontes:

http://www.fleury.com.br/

http://saberdosal.blogspot.com.br/

http://lazer.hsw.uol.com.br/sal5.htm

Sal: uma história do mundo — de Mark Kurlansky

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